PORQUE FALAMOS "ESQUERDA" NA UMBANDA.

26/07/2016 23:16

Para iniciarmos esse trabalho de explicar o porque da palavra Esquerda Na Umbanda falaremos sobre Exu, pois para nós quando falamos em esquerda, sempre nos remete ao nome de Exu.

"Larôye Exu!" que significa o bem falante e comunicador e

Mojuba – meus respeitos.

                                                                                                       

ÁFRICA

Segundo o professor Sikiru Salami – Baba King, em seus estudos da cultura iouruba, “os orixás criados por Eledumare, receberam cada qual uma determinada qualidade de axé, sendo que cada uma dessas qualidades cumpre função específica. Cumpre aos homens solicitarem aos orixás as forças especificas necessárias para a solução de problemas igualmente específicos. Essas forças da natureza não são boas e nem más em si mesmas: são forças neutras que podem sujeitar-se a vontade humana, de modo que os homens podem servir-se delas para atingir seus objetivos, sejam eles benéficos ou não.

Não é correto nos referirmos aos orixás como malévolos ou destrutivos, pois malévolos não são eles, e sim as pessoas que utilizam o axé dessas divindades para atingir seus objetivos mesquinhos ou escusos.”

O axé do orixá é uma força neutra que opera de acordo com a vontade humana.

Na mitologia iourubá Exu foi o primeiro Orixá a ser criado para ser ordenador de todo o sistema cósmico. Exu não se opõe ao seu criador,  Olodumaré, em nenhum momento no corpo literário de Ifá, registrado seja por oralidade ou por escritos originais.

Com a colonização européia, Exu foi sincretizado como o  diabo cristão, por causa de suas características por ser:  irreverentes,  brincalhão, provocador, indecente, astucioso e sensual foi confundido com o mal (diabo). No entanto segundo a teologia iorubá, Exu não está em oposição a Deus, e ainda a concepção de mal e bem é muito diferente dos iorubas e dos cristãos.

Na mitologia Iorubá os Orixás não tem essa concepção maquineista (bom-ruim), como na concepção européia cristã a noção de um Bem absoluto, personificado pelo Rei da Glória, implica a noção de um Mal absoluto, personificado pelo Inimigo , coube a Exu representar esse papel.

As formas deturpadas, aculturadas e sincréticas que impuseram e continuam a se impor à religião, nos dias de hoje, foram e ainda o são, os maus frutos decorrentes do processo da escravatura nas Américas e das colonizações européias impostas a povos africanos.

Conceitos cristãos como os de alma, céu, inferno e purgatório encontraram terreno fértil para se propagar nas já contaminadas tradições iorùbá e de suas descendentes, seja por missionários, seja por agentes governamentais e seja por autores pertencentes a outras culturas e/ou crenças.E o pior, os registros decorrentes dessas interpretações (que até hoje continuam) criaram "falsas" tradições, que se tornaram "verdades literárias inquestionáveis" e vitimam a religião iorùbá até hoje.

Exu por se Tratar de uma entidade associada a sexualidade e a fertilidade, seu culto de origem africana, quando descoberto pelos europeus séculos atrás foi alvo de preconceitos e mal-entendidos. Sua demonização foi inevitável, tanto na África quanto nas Américas, para onde seu culto foi trazido.

Exu tem características que geralmente questionam, invertem ou quebram regras e comportamentos. Por isso Exu é também visto como trapaceiro, brincalhão, esperto ou malandro. É tido como o senhor dos processos de fertilidade e cultuado sob a forma de um falo ereto, em altares públicos localizados na frente das casas, nos mercados e nas encruzilhadas.  Quando seu culto foi “descoberto” pelos europeus, iniciou-se um processo no qual a divindade foi associada ao imaginário do mal, da desordem e da repressão sexual no período medieval (ao demônio cristão e mulçumano).

Na diáspora brasileira, é sincretizado como o Diabo católico, perde seu direito de ser Orixá (na Umbanda) e passa ser entidade sob a ordem de outras, menos evoluído então, e com menos discernimento e senso de valor do que seja certo e errado perante as Leis Cósmicas. Um grande equivoco.

Exu é tido como o Orixá da comunicação, ele faz a comunicação entre o mundo espiritual - Orun e o mundo material - Aiye. Tem o papel de guardião  das aldeias, cidades, casas de axé e do comportamento humano.

A palavra Exu em Iorubá, significa “Esfera” = Orixá do movimento.

A ele se pede licença para todas as empreitadas, para liberar e orientar os caminhos, sob pena de confundir-se, perder-se extraviar nos conflitos que desviam da senda principal. Neste sentido, é o primeiro a ser saudado, lembrado e reverenciado. Ordem da conciliação dos contrários, habita todos os princípios e, por isso, suas facetas masculina e feminina. É a divindade mensageira, dinâmica, temida e respeitada, que deve ser saudade sempre em primeiro lugar para não atrair confusão ou vingança.

Os Fon do ex-Daomé, Exú – Elegbara tem o nome de Légba, sua representação é um montículo de terra em forma de homem acocorado, ornado com um falo de tamanho respeitável. O símbolo do falo (símbolo do sexo e da procriação) também representa o caráter truculento, atrevido e sem-vergonha e de seu desejo de chocar o decoro.

Os iourubas cultuam Exu em um pedaço de pedra porosa chamada Yandi, ou produzem um montículo grotesco modelado na forma humana com olhos, nariz, boca feita de búzios. E ainda o representam na forma de uma estatua enfeitada com fileiras de búzios, tendo em uma de suas mãos pequenas cabaças onde ele carrega diversos pós para usar em seus trabalhos.

Com o passar do tempo, o corpo antropomórfico de Exu assumiu a forma cilíndrica, numa provável referência ao falo, a o cetro, a forma de um garfo de três pontas (tridente)- o cetro – garfo é uma referencia ao diabo europeu. Estando associado ao poder de fecundidade (símbolo do falo - ogobo).

Exu é tido como jovial e dinâmico, astucioso, vaidoso, culto e dono de grande sabedoria, grande conhecedor da natureza humana e dos assuntos mundanos, isso o torna admirado pelos seus seguidores.

Segundo Pierre Fatumbi Verger no livro Orixá, Exu:

 “é um Orixá de múltiplos e contraditórios aspectos...De caráter irascível, ele gosta de suscitar dissensões e disputas, de provocar acidentes e calamidades publicas e privadas. É astucioso, grosseiro, vaidoso, indecente,a tal ponto que os primeiros missionários, assustados com essas características, comparam-no ao Diabo, dele fazendo o símbolo de tudo o que é maldade, perversidade, abjeção, ódio, em oposição a bondade, à pureza, à elevação e ao amor de Deus”.

No entanto se bem tratado com consideração, ele também tem um lado positivo, é bom é prestativo com quem o reverencia. Ele é considerado o mais humano dos Orixás, pois suas características lembram muito as do homem (bem e mal). 

Para outros autores, Exu orixá da ordem, da disciplina e da organização, relaciona-se ao comportamento humano e a ordem do universo. Ele é o inspetor dos rituais, quando manifesta a verdade, nem sempre agradável de ser ouvida, pode ser considerado um inimigo.

Exu de mal nada tem,ao contrário, apenas age com justiça. Suas ações para com os seres humanos são altamente benéficas, auxiliadoras e produtivas para aqueles que fazem uso adequado de seu livre-arbítrio e que, com retidão, se portam de maneira condigna para com os princípios e padrões morais e religiosos, seja em relação a si mesmo, seja em relação ao meio ambiente em que vive.

BRASIL

Muitos escravos aqui no Brasil foram forçados a mudar seus conceitos religiosos quando foram catequisados pelo clero eclesiástico vigente na época: era melhor ser escravo e ter uma chance de catequisação – e ser “salvo” – do que continuar na “África” (cultuando os seus Deuses – Orixás) e ir para o inferno.

  Como todo orixá, Exu também se situa fora do dualismo bem-mal. No entanto, segundo Ortiz, o pensamento umbandista reinterpreta a tradição afro-brasileira segundo as categorias benéfico ou maléfico. E chama a atenção para um aspecto muito importante: como a sociedade abrangente opera segundo um modelo racista, práticas religiosas de matriz negro-africanas são consideradas “coisas de negros” e as práticas de magia negra são tidas como “magia dos negros”. Ortiz assinala esse equivoco absurdo, que tanto vem contribuindo para manter o estereótipo negativo dessa divindade:

“Nesse sentido podemos afirmar que os orixás da Umbanda são entidades brancas, enquanto Exu e a única divindade que conserva ainda traços de seu passado negro – sugestivamente ele se associa ao reino das trevas (...). Ele é o que resta de negro, de afro-brasileiro, de tradicional, na moderna sociedade brasileira. (Ortiz, 1978,p134 – EXU E A ORDEM DO UNIVERSO).”

Devido ao sincretismo ocorrido no Brasil com o nascimento da Umbanda, seja por necessidade ou por gosto, os Orixás foram sincretizados a santos católicos e suas imagens foram feitas na cor branca, não era costume ter santo negro nos terreiros de umbanda, a não ser aquelas imagens de santo negro mesmo como São Benedito.

 

UMBANDA

O Orixá Exu, cultuado somente nas nações de Candomblé, sendo considerado uma divindade, não incorpora para dar consultas, diferentemente do Exu de Umbanda, que é considerado uma entidade, o espírito de alguém que nasceu e morreu,   povo de rua ou catiço.

Para muitos adeptos do candomblé, o Exu que a Umbanda cultua seria um espírito de morto (egum) e não Orixá de origem africana.

A umbanda, religião afro-brasileira de influencia kardecista, nascida no âmbito dessa ideologia do progresso social nas primeiras décadas do século XX, traduziu para o plano espiritual os anseios de mobilidade das classes rurais e urbanas.

Assim, por influencia da teoria da evolução espiritual kardecista, a umbanda organizou suas entidades em grupos ou “linhas”, hierquizado-as segundo estágios evolutivos. A categorias dos Exus representa então o degrau mais baixo dessa hierarquia, e dela fazem parte os espíritos condenados ao reino das trevas e das sombras porque nas terra tiveram uma vida desregrada.

Nas sessões de Umbanda, a função do culto a estes espíritos é promover sua evolução espiritual. Muitos deixam a condição de Exus Pagãos para se tornarem Exus Batizados.

Há algumas visões sobre o Exu na Umbanda:

·         São entidades de pessoas desencarnadas que para sua evolução espiritual retornam a terra para cumprir sua missão. Como espíritos que estão procurando sua evolução. Ainda não se deve confundi-los com Quimbas, ou seja espíritos que desejam e vivem no mal e não se preocupam com as conseqüência de seus atos, pelo contrário sentem prazer no que fazem;

·         Ainda é compreendido na Umbanda em três conceitos:

o   O de uma separação entre o bem e o mal, sendo o mal representado por Exu e o bem pelos demais orixás\ guias;

o   O de uma subordinação dos Exus aos espíritos de luz, o que implica numa vitória do ego superior sobre o inferior;

o   E finalmente, o de uma ambivalência (bem e mal).

§  Com base nisso, a ética religiosa implícita tende a culminar na prática de uma moral repressiva (lembrando que o símbolo de Exu tem a forma de um falo, o que segundo algumas religiões representa o pecado).

·         Os Exus atuam diretamente em nosso lado sombra e são os grandes agentes de assepsia das zonas umbralinas. Em seus trabalhos, cortam demandas, desfazem feitiçarias e magias negativas feitas por espíritos malignos, em conluio com encarnados que usam a mediunidade para fins nefastos. Auxiliam nas descargas, retirando os espíritos obsessores e encaminhado-os para entrepostos socorristas nas zonas de luz no Astral, a fim de cumprir suas etapas evolutivas em lugares de menos sofrimento.

·         Exu, é Guardião, ele guarda as passagens, encruzilhadas, portas de entrada, tronqueiras, igrejas, templos religiosos, hospitais, cemitérios, etc., também atua nas descargas energéticas e na decantação vibratória de espíritos densos que ficam retidos em seu campo de atuação.

·         Exu é escravo dos orixás. A concepção de Exu como diabo e escravo é certamente tributária da visão católica sobre a religiosidade africana e a escravidão. E mais: a concepção de Exu relacionado ao mundo do trabalho geralmente do trabalho pesado, braçal, ou do trabalho sujo (feitiços, relacionados ao mal), reflete um aspecto importante do imaginário brasileiro, no qual o trabalho braçal é visto como uma tarefa desqualificante, destinada preferencialmente as classes baixas, em geral as populações negras e pobres. Na condição de escravo, Exu é o “pau-mandado”, o capataz, o serviçal, aquele que cumpre ordens. Porem, como marginal, ele é também potencialmente um sujeito da revolta e da insubordinação. Exu, tal como as classes subalternas, precisa ser contido,  e sua força controlada.

·         Aqui há o Exu da entrada, considerado “maléfico” ou perigoso (seria então, o conhecedor dos meandros das ruas, impessoalmente seguindo a lei universalista das trocas: “toma lá, dá cá”, faz o que lhe mandam em troca de um agrado) e o de dentro da casa (aquele que pode ajudar em momentos de dificuldades porque é um “quase parente” e está próximo da família e da casa) que é mais protetor chamado de compadre.

·         Exu ainda é sicrentizado com Santo Antonio (casamenteiro) e São Pedro (aquele que tem a chave de abrir o céu – abrir caminhos).

No Brasil , a imagem de Exu que tem chifres, rabo e segura um cetro em forma de lança (tridente) em vez de cabaças ou ogo foi a que mais se popularizou.

CONCLUSÃO

            Nesse trabalho fica claro para nós o esforço que algumas religiões fazem para se impor a outras, como os cristãos fizeram antes já na África e o fazem hoje, impondo aos seus fieis que nosso Exu e outros Orixás são o demônio e somente causam mal aos mesmos.

            Estudando a história vemos que em todos os tempos e países isso ocorreu uma população dominando a outra e impondo sua cultura e religião.

Infelizmente esse povo que sofreu tanto sendo vendido por seus próprios conterrâneos para serem escravos, além de terem que abandonar a terra natal, também terem que abandonar e abdicar de sua cultura e religião matriz.

Como podemos verificar o Orixá Exu, na verdade talvez tenha até mais importância que os demais Orixás, mas por suas características mais parecidas com os humanos foi passado para o lado do mal e isso infelizmente perdura em muitos lugares e culturas até os dias de hoje.

Mas como sua força não se cala e não se pode apagar a figura de Exu, tentam o colocar no lugar do mal ou simplesmente o inferiorizam,colocando-o como “escravo” dos outros Orixás ou Guias, ou ainda o colocam como um espírito não evoluído que está a busca de evolução.

Em nossa cultura a esquerda (mão) é  ou era tida como algo errado, tanto é que no passado quando os pais percebiam que seu filho seria sinistro (ou seja, sua mão dominante, seria a esquerda) eles a amarravam, fazendo com que a criança se esforçasse a aprender a fazer as coisas com a mão direita.

            É possível que as culturas e religiões antigas e algumas atuais colocam Exu na esquerda com a intenção de reprimir tudo o que ele representa: jovialidade, sexualidade, vida e expressão dos sentimentos, no entanto não se consegue reprimir as energias por muito tempo, uma hora elas escapam e vem a tona com tudo com toda a sua fora e esplendor.

Portanto se faz necessário que principalmente nós umbandistas estudemos para nos esclarecermos sobre esse grande Orixá e suas características e com isso, termos uma nova visão sobre guia \ Orixá, não como uma figura demoníaca, e assim conseqüentemente conseguirmos tirar essa peja que Ele representa o mal. É de suma importância que saibamos distinguir um zombeteiro de um Exu para que não haja duvida quanto ao seu papel na nossa religião.

Quando pensarmos agora na Esquerda, lembre-se, esse é o lado do coração, e se Exu está desse lado, ele está mais perto do que é mais verdadeiro em nós –nosso coração - nossas emoções, e todos os sentimentos. Tenhamos claro que na maioria das vezes precisamos das 2 mãos para pegarmos um peso do chão, portanto, ambos os lados são importantes.

           

BIBLIOGRAFIA

Ø  Peixoto, Norberto.  EXU O PODER ORGANIZADO DO CAOS, 1 edição. Porto Alegre: Editora Legião Publicações, 2016

Ø  Samami, Sikiru (Baba King), Ronilda Iyakemi Ribeiro. EXU E A ORDEM DO UNIVERSO, 2 edição, São Paulo, 2011

Ø  Silva, Vagner Gonçalves da. EXU “O GUARDIÃO DA CASA DO FUTURO”,  1 edição. Rio de Janeiro : Editora Pallas, 2015

Ø  Verger, Pierre Fatumbi. ORIXÁS – DEUS IORUBÁS NA ÁFRICA E NO NOVO MUNDO,  São Paulo, Editora Corrupio Comércio Ltda 1981

 

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