NÉSCIO E O CEGO - SUSAN WEISS ROSE

06/09/2015 23:11

NÉSCIO E CEGO

 

 

Trabalho de Conclusão de Curso submetido à Federação de Umbanda e Candomblé do estado de São Paulo como requisito do Curso de Formação de Sacerdote de Umbanda - Turma 2014/2015.

 

Orientador: Prof. Sacerdote Carlos Roberto Salun, presidente da FUCESP.

 

 

SÃO PAULO

 

 

NÉSCIO E CEGO

 

 

Resumo

 

O trabalho apresenta a definição e discussão sobre quem é o néscio e quem é o cego, discutindo alguns aspectos de suas atitudes. Néscio é aquele que não consegue ver porque não tem instrução ou conhecimentos necessários. Cego é o que tem conhecimentos limitados, que considera a sua como verdade única. Em seguida procura demonstrar que a doutrina e prática da Umbanda representam a superação da situação de néscio e de cego.

 

 

Palavras-chave

 

Néscio – Cego – Umbanda – Doutrina – Tolerância

 

 

SUMÁRIO

 

 

1.         O que é o néscio e o cego?                                                                              3

 

2.         O que é a Umbanda?                                                                                          7

 

3.         Conclusão                                                                                                             9

 

4.         Bibliografia                                                                                                            9

 

 

 

Quem é o néscio e o cego?

 

A expressão portuguesa “néscio” tem sua origem no latim nescius com o sentido de  “pessoa sem instrução, sem discernimento, sem coerência, ignorante, incapaz, inapto e bronco”. No universo religioso, o néscio é aquele que segue apenas as suas próprias opiniões, seus próprios impulsos. O néscio, sob o ponto de vista das religiões, não tem ou perdeu aquele conhecimento que faz com que viva bem consigo mesmo, com a divindade e com o próximo. No exemplo abaixo que destacamos da tradição budista, o néscio é aquele que não tem determinado conhecimento e por isso age mal com o próximo:

 

Observando os costumes humanos, o Senhor Buda viu que muitos males provinham da rapidez com que os vaidosos e egoístas criticavam nésciamente o próximo, e disse aos seus discípulos:

- Se um néscio me ofendesse, lhe responderia com um cordial e sincero amor. Quanto maior mal me fizesse, maior bem eu lhe faria. O perfume da bondade estará sempre comigo, e o fétido alento do mal sopraria com ele.

Sabendo um néscio que Buda pregava o mandamento do amor que prescreve restituir com o bem o mal recebido, aproximou-se dele e o injuriou gravemente. Tornou a injuriá-lo, e quando já não encontrava palavras para ofendê-lo, o Buda perguntou-lhe:

- Filho meu; se alguém recusa o presente que outro lhe oferece, para quem fica o presente? O néscio respondeu:

- Para quem lhe ofereceu. O Buda continuou:

- Pois bem meu filho: injuriaste-me e eu recuso tuas injúrias. Guarda-as para ti. Não serão para ti fonte do mal? Assim como o eco pertence ao som, a forma ao corpo, também o mal consumirá o autor do mal. O néscio não soube o que responder, e o Senhor Buda prosseguiu dizendo:
- O malvado que injuria o virtuoso, assemelha-se ao que cospe ao céu, porém recebe no rosto o que cuspiu. Aquele que calunia, assemelha-se a quem com o vento contrário, tenta atirar um punhado de pó no rosto de outrem. O pó cega os olhos de quem o atirou. Ninguém pode ferir o virtuoso; sobre seu próprio autor recairá o mal que alguém lhe tentar fazer.

O ofensor afastou-se vagarosamente, envergonhado. Depois, porém, regressou arrependido e refugiou-se no Buda, no Dharma e no Sangha (na doutrina e na igreja budista).”

 

Visão semelhante do néscio tem a antiga tradição judaica, que o vê como aquele que “está louco”, fora de si, e por isso não sabe fazer o bem, e não conhece mais a Deus. O profeta bíblico Jeremias, assim se refere aos néscios, no Antigo Testamento:

"Deveras o meu povo está louco, já não me conhece; são filhos néscios, e não entendidos; são sábios para fazer mal, mas não sabem fazer o bem". [Jeremias 4:22]

 

Semelhante é a visão dos primeiros cristãos. O néscio é o que não tem conhecimento da religião e de suas leis, é o contrário do sábio. O apóstolo Paulo, na Epístola aos Efésios, refere-se assim aos néscios:

 

"Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, mas como sábios". [Efésios 5:15].

 

Néscio é aquele que não quer ou não pode compreender certos ensinamentos da religião e de seus valores. O néscio existe, como vemos pelos exemplos acima, em qualquer cultura. O filósofo Platão de certa forma se refere aos néscios em seu "Mito da Caverna". Os néscios, sem que saibam, estão presos no fundo de uma caverna, onde tomam as sobras por realidade. Eis como os descreve o grande Platão:

 

"Imaginemos homens que vivam numa caverna cuja entrada se abre para a luz em toda a sua largura, com um amplo saguão de acesso. Imaginemos que esta caverna seja habitada, e seus habitantes tenham as pernas e o pescoço amarrados de tal modo que não possam mudar de posição e tenham de olhar apenas para o fundo da caverna, onde há uma parede. Imaginemos ainda que, bem em frente da entrada da caverna, exista um pequeno muro da altura de um homem e que, por trás desse muro, se movam homens carregando sobre os ombros estátuas trabalhadas em pedra e madeira, representando os mais diversos tipos de coisas. Imaginemos também que, por lá, no alto, brilhe o sol. Finalmente, imaginemos que a caverna produza ecos e que os homens que passam por trás do muro estejam falando de modo que suas vozes ecoem no fundo da caverna.

 

Se fosse assim, certamente os habitantes da caverna nada poderiam ver além das sombras das pequenas estátuas projetadas no fundo da caverna e ouviriam apenas o eco das vozes. Entretanto, por nunca terem visto outra coisa, eles acreditariam que aquelas sombras, que eram cópias imperfeitas de objetos reais, eram a única e verdadeira realidade e que o eco das vozes seriam o som real das vozes emitidas pelas sombras.

 

Suponhamos, agora, que um daqueles habitantes consiga se soltar das correntes que o prendem. Com muita dificuldade e sentindo-se frequentemente tonto, ele se voltaria para a luz e começaria a subir até a entrada da caverna. Com muita dificuldade e sentindo-se perdido, ele começaria a se habituar à nova visão com a qual se deparava. Habituando os olhos e os ouvidos, ele veria as estatuetas moverem-se por sobre o muro e, após formular inúmeras hipóteses, por fim compreenderia que elas possuem mais detalhes e são muito mais belas que as sombras que antes via na caverna, e que agora lhes parece algo irreal ou limitado.

 

Suponhamos que alguém o traga para o outro lado do muro. Primeiramente ele ficaria ofuscado e amedrontado pelo excesso de luz; depois, habituando-se, veria as várias coisas em si mesmas; e, por último, veria a própria luz do sol refletida em todas as coisas. Compreenderia, então, que estas e somente estas coisas seriam a realidade e que o sol seria a causa de todas as outras coisas. Mas ele se entristeceria se seus companheiros da caverna ficassem ainda em sua obscura ignorância acerca das causas últimas das coisas.

 

Assim, ele, por amor, voltaria à caverna a fim de libertar seus irmãos do julgo da ignorância e dos grilhões que os prendiam. Mas, quando volta, ele é recebido como um louco que não reconhece ou não mais se adapta à realidade que eles pensam ser a verdadeira: a realidade das sombras. E, então, eles o desprezariam...."

 

 

A palavra portuguesa "cego" também tem origem no latim, derivando de caecus. Cego pode significar aquele que não enxerga, que perdeu a visão, mas também significa o que deixou de possuir razão, o que perdeu o controle, o alucinado.

 

Cego também é aquele que tem uma crença cega, que acredita em tudo que lhe é dito, que não questiona. O cego está, de certa maneira, em uma zona de conforto no que se refere à sua fé. Nada coloca em dúvida, nada critica. Dos outros, também não aceita questionamentos e condena aqueles que não têm a mesma inabalável convicção que a sua. Sobre o fanatismo dos cegos, sempre convictos de suas ideias e envolvidos em conflitos, escreve o filósofo francês Voltaire (1694-1778) em seu "Tratado sobre a tolerância":

 

"A natureza diz a todos os homens: 'fiz todos vós nascerem fracos e ignorantes, para vegetarem alguns minutos na terra e adubarem-na com vossos cadáveres. Já que sois fracos, auxiliai-vos; já que sois ignorantes, instruí-vos e tolerai-vos. Ainda que fôsseis todos da mesma opinião, o que certamente jamais acontecerá, ainda que só houvesse um único homem com opinião contrária, deveríeis perdoá-lo, pois sou eu que o faço pensar como ele pensa.

 

Eu vos dei braços para cultivar a terra e um pequeno lume de razão para vos guiar; pus em vossos corações um germe de compaixão para que uns ajudem os outros a suportar a vida. (…) Sou eu apenas que vos une, sem que o saibais, por vossas necessidades mútuas, mesmo em meio a vossas guerras cruéis tão levianamente empreendidas, palco eterno das faltas, dos riscos e das infelicidades. (…) Com minhas mãos plantei os alicerces de um prédio imenso; ele era sólido e simples, todos os homens nele podiam entrar com segurança; quiseram acrescentar os ornamentos mais bizarros, mais grosseiros e mais inúteis; e o prédio começa a desmoronar por todos os lados; os homens pegam as pedras e as atiram uns contra os outros; grito-lhes: Parai, afastai esses escombros funestos que são vossa obra e habitai comigo em paz no prédio inabalável que é o meu.' "

 

A fé cega costuma levar aos fanatismos, às perseguições religiosas, à tortura e morte de pessoas que pensam diferente. Mesmo em um país relativamente tolerante em relação a assuntos religiosos como o Brasil, acontecem perseguições a grupos religioso. A história nos fala, por exemplo, do fanatismo que cercava as ações da Inquisição, tribunal estabelecido pela igreja católica para perseguir aqueles que não seguiam a ortodoxia do catolicismo.

 

Outro episódio de fanatismo foram as Guerras Religiosas, ocorridas principalmente na França do século XVI, que colocaram frente a frente cristãos católicos e cristãos protestantes. Ficou tristemente famosa a Noite de São Bartolomeu (pois era dia deste santo), ocorrida em 24 de agosto de 1572. Nesta data teve início o massacre de cristãos protestantes franceses, chamados de huguenotes, que ao longo dos próximos meses vitimaria milhares de pessoas - não existem dados exatos sobre o número de mortos. Tudo em nome do fanatismo, da ideia de que "aquilo que nós acreditamos é a verdade, e o que vocês acreditam é a mentira".

 

Sobre o fanatismo e a fé cega escreve o filósofo e líder religioso hinduísta Vivekananda:

 

"Aquele que pede a outros que o creiam cegamente, ou que arrasta as pessoas atrás de si pelo poder controlador de sua vontade mais forte, ofende a Humanidade, ainda que o não pretenda. Usai, portanto, a mente. Controlai corpo e mente, vós mesmos, e lembrai-vos que a menos de serdes enfermos, nenhuma vontade estranha poderá agir sobre vós. Evitai todos, grandes ou bons, que vos pedem crença cega." (Swami Vivekananda, mestre hindu do século XIX e XX)

 

 

No entanto, a partir do momento em que o cego coloca em dúvida sua fé cega, ele se transforma. Procura estudar, esclarecer suas dúvidas e se aprofunda nos fundamentos de sua religião, seja qual for. Sobre esta transformação, escreve o apóstolo Tiago:

 

"Mas a sabedoria que do alto vem é, primeiramente pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, e sem hipocrisia".

 

 

Acontece muitas vezes que a mesma pessoa começa sua vida como néscio e depois de adquirir alguma fé, torna-se cega, fanática. A verdade é que a fé transforma, ilumina, fortalece o ser em todos os sentidos. Mas a fé nunca pode ser cega, ou seja, não podemos transformar nossa fé em motivo de ignorância, acreditando que ela é o único caminho que pode salvar a todos. A fé é a nossa caminhada e nossa verdade diante da vida e de Deus. No entanto, devemos ter consciência de que, apesar de vivermos em sociedade, somos indivíduos e, como indivíduos, enxergamos e professamos nossa fé de forma individualizada, mesmo que pertençamos a um grupo religioso específico. Assim, para que a nossa própria fé não seja deturpada em seus significados e valores, devemos conhecer e respeitar a fé do próximo.

 

Podemos dizer que fé sem razão não é fé, podemos afirmar que fé sem doutrina é confusão, mas na verdade a fé plena tem duas companheiras inseparáveis: a sabedoria e o amor. A sabedoria e o amor são os principais ingredientes de uma fé verdadeira e que é afastada da ignorância, da ilusão, do fanatismo e da cegueira da alma e da mente.

 

 

O que é a umbanda?

 

Sob aspecto sociológico e histórico a umbanda é uma religião brasileira, nascida da fusão de certos princípios e doutrinas do espiritismo kardecista em união com a religião africana, trazida pelos negros nos tempos da colonização. Quando forma incorporadas na formação da Umbanda, estas religiões africanas, no entanto, já estavam mescladas com certos aspectos do catolicismo português e com algumas práticas religiosas dos indígenas. Esta associação de crenças religiosas de diversas origens é chamada de sincretismo religioso.

 

Além do culto das forças da natureza, os Orixás, a religião original trazida pelos africanos também cultuava os antepassados, prática também mantida pela Umbanda. Estes antepassados cultuados podiam ser reis, rainhas, príncipes, princesas e até gente comum, trazida ou não da África como escravo. Os antepassados, que a crença espírita considera espíritos desencarnados, são conhecidos na Umbanda atual como pretos velhos.

 

Os pretos velhos, segundo a doutrina umbandista, optaram por fazer sua evolução espiritual através da prática da caridade, mantendo as características de sua última encarnação e incorporando em médiuns nos terreiros de Umbanda. O mesmo se pode dizer sobre os espíritos de colonos, caboclos, índios, boiadeiros, crianças e até de pessoas comuns que tiveram uma passagem difícil pela Terra.

 

Ainda segundo a doutrina umbandista, estes espíritos se juntaram a esta religião por afinidade, para evoluírem e ajudarem os outros a evoluir, praticando a caridade. Isto fazem incorporando em seus médiuns, dando passes, passando mensagens, medicando e orientando os assistenciados da melhor forma.

 

A Umbanda tem um conjunto de princípios, tanto doutrinários quanto ritualísticos. Tem os seus sacramentos como os batizados, as firmezas e os casamentos; usa a magia como meio de cura; prega a crença em um Deus único, Olorum; prega a caridade, pratica a fé, o amor, a solidariedade, o conhecimento, a sabedoria. Enfim, a Umbanda promove a união em torno dos mais elevados princípios da humanidade, comuns a todas as religiões.

 

 

Conclusão

 

A Umbanda não prega uma fé cega. Sustenta uma fé baseada no amor e só se pode amar aquilo que realmente se conhece. Para a Umbanda tudo é amor: vida é o amor existencial, a razão é o amor que pondera, o estudo é o amor que analisa, a ciência é o amor que investiga, a verdade é o amor que se eterniza, o ideal é o amor que se eleva, a religião é o amor que busca Deus, a fé é o amor que se transcende, a esperança é o amor que sonha, a caridade é o amor que auxilia, a fraternidade é o amor que se expande, o sacrifício é o amor que se esforça, a renúncia é o amor que se depura, a simpatia é o amor que sorri, o altruísmo é o amor que se engrandece e o trabalho é o amor que se constrói.

 

O néscio é aquele que não sabe e por isso age errado. O cego é aquele que sabe pouco e pensa saber a verdade, tornando-se fanático. A Umbanda, no entanto, é o esforço para que possamos transcender a situação de néscio e de cego. O fiel umbandista não deve somente estar na Umbanda, mas ser Umbanda; vivendo sua religião, aprofundando seu estudo e sua prática, respeitando todas as criaturas. Ser da Umbanda é ser amor de corpo, mente e alma. É ser convicto das forças dos Orixás e ser fiel às forças da Lei e da Justiça.

 

Bibliografia consultada

 

  • Blog "Povo de Umbanda" -  Textos postados em 2010.
  • Jornal o Juca. Jornal de Umbanda Carismática, Volume VIII,  n. 85, ano 2013.
  • Néscio e Cego. Disponível em: <http://www.dicio.com.br/nescio/> e <http://www.dicio.com.br/cego/>. Acesso em 12/05/2015.
  • O Mito da Caverna de Platão. Disponível em:

<http://www.holos.org.br/wp-content/uploads/2012/02/o_mito_mito_da_caverna.pdf>. Acesso em 12/05/2015.

  • Publicação: "Primeira Leitura dos Fundamentos Umbandistas".
  • Revista Espírita de Umbanda. Uma religião brasileira volume 14. Fé cega, tempos obscuros.
  • Revista USP n. 16, 2002.
  • Umbanda para a Vida - Segunda leitura dos fundamentos Umbandistas. Roberto Di Luca Melani e Samantha Sade (org.) 21ª edição.
  • Voltaire: Tratado sobre a tolerância (notas de leitura). Disponível em:

<http://acasadevidro.com/2013/01/29/tratado-sobre-a-tolerancia-de-voltaire-1694-1778-notas-de-leitura-em-construcao/>. Acesso em 2/6/2015.

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